sábado, 18 de julho de 2009

Celebrando a Paz

A festa de abertura das olimpíadas da minha escola (Escola Presbiteriana de Cuiabá) estava quase no fim. Já havia sido apresentado de tudo ao público, teatro, dança, coral e cantores mirins evangélicos. Eu até já tinha feito o meu papel de Jesus, vestido de branco e passeando pelo meio das pessoas com capas pretas e as libertando do mal. Faltava apenas o Grand Finale que foi programado pelos alunos da oitava série para fechar com chave de ouro aquela festa. A ideia consistia em uma coreografia em que as meninas da turma dançariam vestidas com vestidos brancos celebrando a paz e cada uma delas segurando um globo de isopor oco nas mãos, pintado com o mapa mundi. Mas o tchan da coisa, pelo menos o que se esperava que fosse, seriam as pombas brancas que a diretora libertaria de uma caixa de madeira no meio da apresentação, representando a paz. A ideia parecia infalível, não fosse pela incrível adaptação que fizeram de última hora, colocar as pombas dentro dos globos que as meninas carregariam.

A coreografia foi ensaiada muitas vezes para ser perfeita na cerimônia. E foi. Ao final todas elas abriram seus globos para que suas pombas sobrevoassem o público e fossem livres . Mas as pombas estavam tontas de tanto girar dentro dos globos. Metade delas tentou sair e acabou se jogando contra o chão e a outra metade simplesmente não conseguiu sair de dentro do globo.

Os aplausos encerraram a cerimônia e as alguns alunos foram socorrer as pombas inconscientes no chão. Uma delas rodava e se debatia com as asas.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

The sweetest

Tente se lembrar da primeira vez que você percebeu que estava apaixonado. Não tô falando do seu primeiro beijo por que talvez ele nem tenha sido um apaixonado, nem do seu primeiro namoro por que talvez nem tenha ido tão longe. E talvez ainda, você nem tenha beijado a pessoa que mais desejou. Tô falando da primeira vez que você se surpreendeu por estar pensando em uma pessoa de forma mais especial (se é que posso dizer) do que pensa nas outras pessoas. A primeira vez que você teve um medo irracional de que alguma coisa acontecesse de negativo entre vocês. Aquele dia que depois de ter ido ao cinema com ela, secretamente se surpreendeu por nunca ter estado tão feliz.

Se descobrir apaixonado é sempre muito gostoso. E comigo a primeira vez foi chocante, prazerosa e conflitante dentro da minha cabeça. Chocante por que me peguei olhando pra alguém que estava todo dia lá comigo há anos e eu nunca tinha visto mais que um amigo nele (mesmo que fossemos muito íntimos) e nem sonhava que chegaria a me sentir assim. Prazeroso já era desde quando o sentimento era só de amizade. Conflitante? Essa você deve imaginar, na época em que isso surgiu eu era religioso demais pra aceitar aquele prazer numa boa. Por causa disso tudo, foi o momento mais intenso da minha vida e até hoje se você me perguntar quantos anos eu gostaria de ter eu te respondo na lata, 16 pra sempre.

A memória que eu quero registrar aqui não é chocante. Se fosse uma foto, você nem imaginaria o que a cena tem de tão importante. Uma rua, duas bicicletas descendo por ela em alta velocidade, uma corrida. Dois moleques suados com o vento batendo na cara. Me lembro de estar perdendo. Mas era bom, de trás dava pra ver quem estava na frente e observar o cabelinho dele mexendo com o vento. Nossa! Como eu gostava daquilo. Descia aquela rua naquela bicicleta com aquela companhia muitas vezes no dia e foi em uma dessas descidas que eu tive aquele frio na barriga e pensei: "Não sei como eu consegui viver sem isso tanto tempo."

domingo, 14 de junho de 2009

Na Enfermaria

Quando eu estava no segundo ano (meu primeiro segundo ano, em 2005), era muito non-sense, o tipo de garoto que brincava de Jackass com as cadeiras da escola, não tinha noção do perigo e não sabia se comportar.
Sentado na cadeira, num intervalo entre aulas, o garoto que sentava atrás de mim começou a gritar o nome da menina que sentava à minha frente. "Mayara!". E nada da Mayara responder. Comecei a ficar incomodado com ele gritando atrás de mim e com muita delicadeza meti o pé na cadeira da frente. A menina caiu no chão na frente dela que nem um boneco e ficou lá parada. Rolou aquele silêncio da multidão se concientizando da cena. Subiu aquele puta frio no estômago. "Matei a menina". Ela foi carregada pra sala de enfermagem e lá ficou até se recuperar. Fiquei lá com ela com o cu na mão né. Descobri que a bendita tinha problema na coluna e eu fui bem chutar nas costas. No fim tudo ficou bem, não levei advertência por que ficou caracterizado como "acidental" (rs) e ela não passou a me odiar por isso, hoje até somos mais amigos que na época. Mas foi muito medonho.

O.O

terça-feira, 9 de junho de 2009

In Memorian

Durante a vida as pessoas tem muitos animais de estimação. Eu mesmo já tive muitos deles, a maioria eram cãezinhos, mas também já tive 4 periquitos (se me lembro bem se chamaram Bam-Bam, Pedrita, Princesa e Franklin), que morreram de infecção intestinal, eles defecavam e não sei por que o cocô deles ficava pregado na bunda e com o tempo juntava bactérias, dava doença e eles amanheciam deitadinhos no fundo da gaiola. Deles eu nem senti muita falta, eles só ficavam fazendo barulho na sacada. Também uma vez tive uma aranha. Se chamava Tarja e eu a guardava em um pote de maionese com um galhinho dentro pra ela fazer a teia dela. Eu gostava de jogar pernilongos, mosquitos e formigas pra ela comer, se você já viu uma aranha caçando e se alimentando deve conhecer essa emoção. Tive que soltar Tarja no jardim do prédio porque ela colocou um saco de ovos e em uma semana o pote de maionese tinha tanta aranha que eu cheguei a sonhar com elas andando pela casa. Soltei tudo.

Mas esse post é especial pra um cãozinho que eu ganhei de uma amiga, Amy, o Willy. Willy Poll. Ele não era o cachorro mais amigo que se pode ter, aliás, ele era o mais esnobe que um cão pode ser. Mamãe dizia que era por causa da raça dele, Lhasa-Apso, que é um raça tibetana que foi criada como companhia para monges. Imagina um cachorro monge, então. Ele ficava sempre paradinho no cantinho, nem parecia que tinha um pet na casa. Mas o que eu mais gostava nele eram suas peculiaridades. Ele não era muito adepto do latido, como um bom monge era bem silencioso, só tinha o estranho costume de latir para o guarda-roupas e isso ninguém entendia. Mas ele resmungava muito, e era um grunhido que soava parecido com um sapo, só que rouco. Willy tinha um comportamento muito estranho. Certas vezes enquanto eu estava assistindo televisão no quarto, ele passava rolando pelo corredor. Sim, ele passava rolando pelo corredor, indo e voltando sem fazer barulho, só rolando. Ele não sabia brincar. Quando era jovem ele até brincava de morder a nossa mão mas com a idade e as doenças chegando ele foi se aposentando do convivio social, até que no final de sua vida era um cãozinho quieto, tímido, silencioso e fedidinho (segundo minha mãe, todo mundo fica fedido quando fica velho "não vê a sua vó como é fedidinha?").

Nos últimos dias Willy passava maior parte do dia deitado, não levantava nem pra fazer necessidades então percebemos a morte batendo à portinha de sua casinha. Em sua última noite, quando chegamos em casa ele estava deitadinho, todo cheio de xixi, no meu quarto, olhando pela sacada do décimo segundo andar (pensando em suicídio talvez O.o). Nem fez festa, devia estar com muita dor vinda da infecção na bexiga. No outro dia enquanto eu estava na escola meu irmão disse que o viu cambaleando até a cozinha, deu uma risada pois achou a cena engraçadinha até que o Willy Poll caiu, mijou e cagou tudo. Morreu.


(Willy Poll, 2005)

Nota de esclarecimento

Assim como meu primeiro Blog ( Não.Esponâneo) este também será inicado com uma nota de esclarecimento. Dizer o porquê de se criar um blog novo é importante pra situar o leitor. Então lá vai. Em linhas gerais esse blog vai tratar de uma assunto que dá pano pra manga, as memórias. 

Aqui quero escrever falando sobre coisas que me lembro e que são importantes, momentos engraçados, fatos e pessoas que me despertam saudades, histórias tristes também quem sabe e coisas do meu passado. Pensando um pouco você pode chegar ao seguinte questionamento, "o que será que eu garoto de 20 anos tem na memória de tão fascinante?". Talvez nada, talvez muita coisa, vai depender do que você considera fascinante. Vou tentar.

Certamente um senhor de 70 tem muito mais a dizer sobre seu passado e muito mais histórias pra contar que eu, mas isso não me impede de ter as minhas, que eu cuido com muito amor (risos). Um dia quem sabe eu chegue aos 70 e tenha muito mais, enquanto isso escrevo aqui sobre o pouco-quase-nada que vivi.